Entrevista: Rodrigo Galvão, da gigante da tecnologia Oracle

Entrevista: Rodrigo Galvão, da Oracle

Foto: Edésio Ferreira/ Estado de Minas

(Por Paola Carvalho*) – Ele mandou um único currículo em sua vida inteira e foi para a vaga de estágio, em São Paulo, na gigante da tecnologia Oracle, há 17 anos. Hoje, Rodrigo Galvão, aos 37, casado com uma belo-horizontina e pai de dois filhos, é o presidente da empresa. Fundada há mais de 40 anos no mundo, oferece serviços de soluções de nuvem (virtual), desde a infraestrutura, aplicativos e plataforma para empresas. Em seu último trimestre fiscal registrou receita de 9,6 bilhões de dólares.

Galvão tem a missão de, em 2019, no Brasil, alavancar a chamada segunda geração de serviços em nuvem, com a promessa de ser mais segura e rápida do que é oferecido hoje por concorrentes, como Amazon e Microsoft. A nuvem “inteligente” guarda informações, faz o processamento delas, de forma mais segura e rápida, tornando-as úteis.

Para a desafiadora missão, ele não abre mão de uma mentalidade contemporânea, própria de jovens executivos da era digital, que levam em conta desde a aproximação com startups (empresas embrionárias de base tecnológica e produto escalável) até a implantação de comitês internos sobre diversidade e inclusão, além de cidadania corporativa. Como parte dessa realidade, a empresa lançou um recrutamento inclusivo, chamado de Generation Oracle. Criado por jovens de áreas diversas da companhia, que conta com entrevistas às cegas para contratar estagiários por seus princípios e não somente pela competência. “A empresa que quer servir a sociedade, precisa ter a sociedade dentro da empresa. Somos plurais e diversos”, destaca.  

Ele transferiu a sede de Belo Horizonte para a recém-inagurada unidade da WeWork – empresa de compartilhamento de espaço de trabalho, fundada em Nova York, e com valor de mercado já avaliado em 47 bilhões de dólares. Essa é mais uma demonstração da transformação cultural que promove na companhia. E foi de lá que ele concedeu essa entrevista exclusiva ao Estado de Minas.

Como foi o início da sua carreira e a sua trajetória na empresa?

Eu estava no segundo ano da faculdade de administração de empresas, quando passei por um mural com vários anúncios de estágios e o da Oracle – sem descrição alguma e só com um e-mail – me chamou a atenção. Enviei e, no dia seguinte, acordei com uma mensagem do Recursos Humanos marcando entrevista com dinâmica. Eram 15 candidatos, eu e um outro fomos contratados. Fui efetivado e percebi que gostava da área comercial… fui para o telemarketing corporativo e, em seguida, vendas de campo. Acabei passando por todas as áreas de venda que você possa imaginar. Me especializei em um mercado bem específico, o de telecomunicações e mídia, um dos grandes mercados da Oracle. Em um determinado momento, lá pelos 25 anos de idade, me chamaram para assumir o primeiro cargo de diretor de uma grande conta e, rapidamente, subi para aposição de diretor das contas de todas as empresas de telecomunicações. Mais tarde, depois de muitas idas e vindas ao México, me chamaram para ser vice-diretor por lá. Eu tinha um filho pequeno, pensei na família, e não aceitei. Fiquei no Brasil. Eu acredito muito no equilíbrio: nem 100% uma coisa, nem 100% outra, temos que ver sempre os dois lados. Há um ano e meio, assumi a presidência da Oracle Brasil.

Qual é o balanço em relação a esse período?

Hoje me enxergo como uma pessoa melhor, pois consigo me colocar no lugar das pessoas. Como presidente, olho o todo, de negócios a processo de treinamento de líderes. Importante falar sobre transformação digital, que na minha visão nada mais é do que uma transformação cultural, que começa pelas pessoas. Não adianta termos um produto digital e pensamentos ainda analógicos. O nosso propósito é que a Oracle seja uma empresa que habilita a transformação do mundo por meio da nossa tecnologia, empoderando pessoas.

Seria esse um pensamento de startups, não?

Temos um pilar forte dentro da Oracle, na área de empreendedorismo e startups, pois não acredito em um futuro sem estarmos todos juntos, fomentando educação e provocando inclusão. Na realidade, são três grandes pilares: empreendedorismo (temos um programa de aceleração de startups), pessoas e clientes (se transformamos pessoas, o cliente é impactado por elas), educação (estamos conectados com universidades e outros programas de aprendizados). Na Oracle, uma empresa de tecnologia, tenho a responsabilidade de preparar pessoas para o futuro do trabalho. Permeando tudo isso, temos vários comitês, como o da diversidade de gênero, de raça e etnias e de gerações. Tudo o que fazemos é orgânico, nós criamos ferramentas e as pessoas criam ações, participam se quiserem. Eu, por exemplo, frequento o de mulheres e chego até a questionar o por quê de não ter mais homens. O objetivo é promover discussões. Acredito que as pessoas precisam discutir para entender sobre algo que ela ainda encara como diferente.

É uma visão contemporânea. Para fazer parte da Oracle exige-se essa mentalidade?

Estamos, neste momento, transformando até mesmo o nosso modelo de contratação, começando pelos estagiários e aos poucos chegaremos em toda a empresa, quebrando o atual fluxo. Passaremos a contratar por princípios e não mais somente por competências. Assim, as entrevistas iniciais serão às cegas (blind interviews). Provoquei ex-estagiários que agora estão em posição de analistas e gerentes a chegarem a uma para isso – a resposta é resultado de um processo de co-criação e aí nasceu o programa Generation Oracle. E sabe quem será o gestor dos nos novos estagiários? Os antigos. Os novos aprendem a função e os antigos aprendem a ser managers (gerentes).

E o funcionário que não se adaptar à nova realidade?

Para mim a cultura é excludente. Se a pessoa sentir que não se adequa a essa cultura, não vai querer fazer parte dela. A unidade da Oracle em Belo Horizonte mudou para a WeWork (empresa de compartilhamento de espaço de trabalho) justamente para estar mais próximo desse ecossistema inovador. Precisamos nos oxigenar para sermos mais criativos. Nas nossas filiais temos o serviço de atendimento a clientes, áreas comercial e de serviço, além de consultorias. Em Belo Horizonte, são cerca de 15 pessoas fixas, além de outras alocadas em projetos específ

No exterior, estamos vendo um jogo duro entre a Oracle e a Amazon? Como se dá no Brasil?

O mercado, hoje, não é mais focado em poucos. Há muitos concorrentes grandes e muitos pequenos também. Concorremos com empresas que nasceram um ou dois anos atrás. A tecnologia permite isso, inclusive nascendo a partir de soluções Oracle. Por isso a nossa estratégia é a de estar próximos às startups, que se tornam parceiras nossas. Brinco que é a robustez da Oracle com a inovação das startups. O objetivo é fomentá-las e não comprá-las. Todo mundo ganha.

Quais são as expectativas para 2019?

Superpositivas. A Oracle já conta com dois data centers no Brasil, instalados em São Paulo. Eles serão modernizados com equipamentos de segunda geração da infraestrutura na nuvem Oracle ainda este ano. O Brasil é uma prioridade. Todo esse conceito de nuvem que o mercado tem hoje, estamos um passo adiante, com uma arquitetura que provê uma série de benefícios, principalmente relacionados à segurança, rapidez e performance… O novo ouro, ou o novo petróleo, é o dado. Cyber ataques e tudo o mais que compreende segurança da informação é o grande desafio do futuro.

Na sua opinião, quais tecnologias serão destaque em 2019?

A tecnologia é evolutiva – não termina uma e começa outra. Ainda serão destaques, por exemplo, Inteligência Artificial (AI) e Internet das Coisas (IoT), que ainda está engatinhando perto de onde pode chegar. Nosso fundador, Larry Ellison, fala que será cada vez mais crítico para qualquer pessoa ou empresa ter seus dados no lugar certo e com uma segurança também correta. Nós lançamos um banco de dados autônomo, alimentado pela própria tecnologia, que corrige e atualiza automaticamente enquanto está em funcionamento – o que reduz custos e aumenta a confiabilidade ao eliminar o erro humano. Se ocorre um acidente no Japão e isso faz uma correlação com algo acontecido em outro lugar do mundo, as máquinas auto-gerenciadas aplicam as mesmas soluções. A máquina não intui, ela executa em cima de fatos e dados.

Como você lida com essa realidade híbrida, onde ao mesmo tempo que falamos de cyber ataques, precisamos conviver com problemas do início da era industrial?

Eu paro para pensar algumas vezes nesse contexto. O mundo passa por uma transformação enorme, mas nem todo mundo tem acesso a essa realidade. Uma das maiores invenções nos últimos tempos foi o glass-form (tela do celular e de outros aparelhos), pois hoje em dia estamos 100% do tempo conectados com o que existe no mundo: acessar o banco, ler uma notícia, fazer uma vídeo-conferência… nada disso era possível poucos anos atrás. O que eu sinto é que cada vez mais pessoas precisam entender a transformação digital como um processo real, pois já está impactando a nossa vida pessoal, profissional e uma série de outras coisas. Eu, pessoalmente, quero causar impacto enquanto estou sentado na cadeira e não depois de fazer a minha vida profissional. A gente pode executar projetos durante a vida inteira, no nosso dia-a-dia.

O que é o futuro para você?

O futuro é algo mágico e desconhecido nos tempos de hoje. O atendimento call center está cada vez melhor, você já resolve 80% das suas coisas por meio digital através de você mesmo, consegue ter informação sobre coisas importantes em tempo real, operações médicas são feitas à distância, ou seja, a vida está ficando melhor. Sou otimista, eu vejo que teremos excesso de oportunidades. Precisamos estar preparados e a tecnologia veio para ajudar.  


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1 Comentário

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Bruno Ceolinresponder
quarta-feira at 10:03 AM

Parabéns pela entrevista. Realmente inspiradora a história do Rodrigo Galvão. O maior desafio que vejo é a tênue barreira existente entre dados privados na núvem e sua possível utilização para retroalimentar processos “públicos” usando IA e IOT, sem ofender o direito de privacidade. O processo de mascarar os dados é falho em um ecossistema que se baseia muitas vezes em análises sintáticas de textos, procura por keywords e tags. Precisamos renovar a forma de trabalhar com dados, ainda mais com o endurecimento das leis de privacidade digital. PS: A pergunta “Como você lida com essa realidade híbrida, onde ao mesmo tempo que falamos de cyber ataques, precisamos conviver com problemas do início da era industrial?” ficou duplicada no texto, com respostas diferentes.

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