Para entender a nova realidade político-econômica

O principal eixo do conflito não é mais entre esquerda e direita

Horizontal: Intervenção governamental, Vertical: bem-estar social para todos/PIB (soma de bens e serviços produzidos) – Fonte: Presencing Institute

(Por Paola Carvalho*) – Só existe a divisão entre direita e esquerda para quem olha para a realidade do século 21 por meio de uma lente do século 20. O professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e cofundador do Presencing Institute Otto Scharmer, no artigo Mudança axial: O declínio de Trump, a ascensão dos verdes e as novas coordenadas da mudança social (na tradução livre do inglês), fala sobre a redefinição das coordenadas política, econômica e cultural nos Estados Unidos, Itália e Brasil, entre outros países.

Scharmer aponta a mudança do antigo debate entre mais governo versus mercado para mais PIB (Produto Interno Bruto: soma de todos os bens e serviços finais produzidos pelo país) versus bem-estar. “A ‘esquerda’ tende a responder aos problemas aumentando os serviços do governo, enquanto a ‘direita’ tende a responder aos mesmos problemas promovendo a iniciativa individual – em suma: mais governo versus mercado.”

Por que as palavras esquerda e direita estão entre aspas em sua fala? É justamente pelo fato de o principal eixo do conflito não ser mais entre esquerda e direita, como aconteceu no século passado, mas entre aberto e fechado.

O professor sênior do MIT diz que conhece “muito bem” uma parte desse eixo, através do presidente norte-americano. Donald Trump, e do recém-eleito presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. O fechado é a mentalidade que amplifica a tríade de medo, ódio e ignorância.

E que, segundo ele, se manifesta em forma de cinco comportamentos, que teriam reformulado a política nos últimos dois anos: blinding (não ver a realidade), de-sensing (ausência de empatia com os outros), absencing (sem conexão com o futuro ampliado), blaming others (incapacidade de refletir) e destroying (destruição da natureza, dos relacionamentos e do eu).

Para ilustrar, Scharmer cita exemplos trumpistas. Entre eles, sobre a mudança climática: não aceitar evidências científicas (blinding na expressão em inglês, ou cegando, na tradução para o português); não empatizar com o crescente número de vítimas, particularmente no Sul global (de-sensing, ou ausência de empatia); desmantelar a Agência de Proteção Ambiental (absencing, ou desconexão com o futuro); enfraquecer ativamente a credibilidade da ciência e dos cientistas do clima (blaming other, ou culpando os outros); e retirar-se do Acordo de Paris, um compromisso internacional discutido entre 195 países com o objetivo de minimizar as consequências do aquecimento global (self-destruction, ou colocar a civilização no caminho da autodestruição).

“Bolsonaro copiou muito disso na campanha que o levou ao poder. Como Trump, ele demonstra desprezo pelas mulheres, pela natureza, pelas minorias e pelas regras e princípios da democracia”, escreve Scharmer, que em seguida questiona o porquê de ter ganho os votos da maioria. Em sua opinião, pelo mesmo motivo que os americanos votaram em Trump e os britânicos no Brexit, a saída do Reunido Unido da União Europeia.

“Acreditam, com alguma justificativa real, que o sistema antigo falhou com eles. Preferem, então, o candidato que promete interromper o sistema atual”.

Ao longo do século 20, o discurso tendeu a se concentrar em diferentes visões sobre como melhor acender o ciclo do crescimento econômico. Uma corrente favoreceu os mecanismos de mercado (liberais e neoliberais). Outra, a intervenção governamental e um direcionamento macroeconômico mais ativo (keynesiano e neokeynesiano).

O discurso deste século, destaca o cofundador do Presencing Institute, emerge em torno de um outro eixo, de uma nova escola de pensamento, que se concentra no bem-estar para todos.

Vivemos uma realidade híbrida, onde as eras industrial e a digital coexistem. Portanto, o velho discurso e os velhos paradigmas não desaparecem. Como mostra a imagem, o eixo horizontal sustenta duas pontas: governo e mercado. Já o vertical mostra que mais PIB não tende a se traduzir em mais bem-estar. Outros indicadores tornam-se mais relevantes para indicar progresso econômico, como o indicador Felicidade Nacional Bruta (BNA), do Butão, o Índice de

Desenvolvimento Humano (IDH), do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), e os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) adotados pela ONU.

O discurso econômico dominante ainda está firmemente preso ao eixo horizontal do pensamento econômico do século 20 e o PIB ainda é o parâmetro referencial. Ao olhar para uma nova realidade através de uma lente antiga, estamos perdendo uma oportunidade histórica. Para atualizar o sistema operacional de nossa economia, seria preciso sair da consciência do sistema do ego (egosystem) para o ecossistema (ecosystem), “de mim para nós”, propõe Scharmer.

*Conteúdo da coluna Fora da Caixa, veiculado todo sábado na edição impressa do jornal Estado de Minas. Confira também os canais de vídeopodcast e instagram.

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