HackTown une tradição e inovação, tecnologia e humanidade

HackTown une tradição e inovação, tecnologia e humanidade

Foto: Lucas Nolasco/Simi

(Paola Carvalho*) – Pense numa cidadezinha tranquila do Sul de Minas rodeada por plantação de café. Agora imagine um festival de inovação e criatividade com mais de 300 palestras, workshops e shows acontecendo simultaneamente, inspirado no célebre South by Southwest (SXSW) – um conjunto de festivais com a mesma temática e propósito de ocupar espaços da cidade, que acontece em Austin, no Texas (EUA). Na última semana, o HackTown levou 5 mil pessoas a Santa Rita do Sapucaí, batizada como Vale da Eletrônica no início dos anos 1980, a 400 quilômetros de Belo Horizonte.

Um circuito composto por 29 localidades, que podia ser percorrido a pé em poucos minutos, conectou entre casas coloniais típicas do interior de Minas, a primeira Escola Técnica de Eletrônica da América Latina (ETE FMC); a instituição de ensino, pesquisa e desenvolvimento de tecnologias Inatel; o SIS Coworking; a Casa Google Developers; entre outras referências. Shows e encontros nas praças e restaurantes promoveram a interação de gente de todo o país e de fora – executivos de empresas, startupeiros, estudantes.

Foto: Lucas Nolasco/Simi

O Sindicato das Indústrias do Vale da Eletrônica (Sindivel) estima que existem ali cerca de 160 empresas de tecnologia, entre startups e indústrias, que faturaram mais de R$ 3 bilhões no último ano. O polo empreendedor teria uma concentração de empresas do ramo que supera qualquer outra cidade brasileira: quatro empreendimentos para cada mil habitantes. Emprega quase 15 mil pessoas, um terço da mão de obra da indústria eletrônica de Minas.

Entre as tecnologias projetadas e desenvolvidas em Santa Rita do Sapucaí estão a tecnologia 3G, a tornozeleira popularizada pela operação Lava Jato, a urna eletrônica, o transmissor de TV digital.

Foto: Lucas Nolasco/Simi

Quando os moradores contam sobre a vocação do município para a tecnologia não deixam de citar um nome: Sinhá Moreira – que também dá nome à avenida principal. A inspiração teria vindo de um encontro, na década de 1950, entre a moradora Luzia Rennó Moreira e Albert Einsten, no Japão. Filha de coronel, ela viajou o mundo com o marido diplomata e passou a acreditar que a educação era semente para o progresso.

O festival, que durou quatro dias e esgotou todas as hospedagem da cidade e região, chegou a promover 27 palestras ao mesmo tempo. Salas lotadas e pessoas sentadas no chão para ouvir e participar de debates cujos assuntos passavam por inteligência artificial (AI), internet das coisas (IoT), blockchain, realidade virtual, machine learning, empreendedorismo, futurismo. E ainda sobre mindfulness, neurociência, diversidade, bioética, transição digital, propósito, felicidade, medicina psicodélica. Também foi possível visitar laboratórios, até mesmo o de prototipagem de humanos sintéticos, que levava a pensar sobre os desdobramentos da edição genética.

Em 2019 tem mais HackTown.

Foto: Lucas Nolasco/Simi

O que é Indústria 4.0?

“É o último modismo propagado na indústria de administração. Trata apenas de tentar categorizar a imensa convergência entre globalização, muitas tecnologias em fase de maturação, uma digitalização enorme das pessoas (celulares como plataformas, redes de dados e serviços globais), culminando com a economia monetária global das criptomoedas.”

A resposta é do economista Courtnay Guimarães, 48 anos, sócio-fundador da Idea Partners, consultoria de transformação digital e investimentos; integrante da Miltiledger, empresa de infra-estrutura de blockchain; professor de gestão de inovação e complexidade; doutorando em tecnologia aplicada na medicina.

Leia entrevista com Courtnay aqui.

“A expressão surgiu, em 2013, a partir de uma iniciativa do governo alemão. É um orientativo às políticas industriais daquele país considerando vários vetores tecnológicos (big data, cloud computing, internet das coisas…). A referência é a uma quarta “onda” onde a primeira foi a máquina à vapor (1700), depois a eletricidade e a linha de montagem e então o uso de controladores lógico programáveis. E agora chegamos à quarta. A grande mudança é que matérias-primas, máquinas, clientes, processos, fornecedores etc estarão integrados e conectados como num universo de partes de um grande lego, sendo independentes e autocráticas. É um revolução e tanto.”

A opinião é do engenheiro eletricista José Lourenço Junior, 57 anos, mestre em administração e doutor em engenharia mecânica. Pesquisa sobre inovações em educação, mora em Santa Rita do Sapucaí, é executivo da Furukawa Electric.

Leia entrevista com José Lourenço aqui.

O que é ser humano?

A consciência sobre as possíveis consequências do avanço tecnológico em velocidade exponencial talvez tenha despertado um medo – ou ao menos a intenção de conhecer melhor a si mesmo e ao outro. “Neste louco processo civilizatório é um desafio não perder a nossa humanidade”, afirmou Tânia Savaget, facilitadora de diálogos. No HackTown foram muitas as palestras e questionamentos sobre o futuro, novas habilidades, o funcionamento do cérebro, o novo mindset (pensamento), entre outros assuntos que voltam o nosso olhar para “dentro”. As pessoas da área de humanas estão hackeando as de tecnologia.

Ouça entrevista com Tânia Savaget aqui.

*Conteúdo da coluna Fora da Caixa, veiculado todo sábado na edição impressa do jornal Estado de Minas. Confira também os canais de vídeopodcast e instagram.

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