Indústria 4.0: Confira entrevista com José Lourenço Junior

Indústria 4.0: Confira entrevista com José Lourenço Junior

Foto: Lucas Nolasco/Simi

(Por Paola Carvalho*) – José Lourenço Junior, 57 anos, é engenheiro eletricista, mestre em administração e doutor em engenharia mecânica. Tem um pós-doc na área de ensino de engenharia: há 8 anos pesquisa sobre inovações em educação. É gestor de uma unidade de negócio em soluções com produtos e serviços para transporte e distribuição de informação de uma empresa de origem japonesa, a Furukawa Electric.

No último 8 de setembro ele participou do painel “A Quarta Revolução Industrial: o que é realidade, o que é ficção”, durante o HackTown, um festival sobre criatividade e inovação realizado em Santa Rita do Sapucaí e que reuniu cerca de 5 mil pessoas por quatro dias na cidade do interior de Minas Gerais. Confira abaixo entrevista sobre o tema.

O que é a quarta revolução industrial para você?

A expressão “Indústria 4.0” surgiu (em 2013) a partir de uma iniciativa do governo alemão. Em resumo, é um orientativo às políticas industriais daquele país considerando vários vetores tecnológicos (big data, clound computing, IoT, que se fundem no que se denomina “cyber phisical production systems”). A referência é a uma 4ª “onda” onde a primeira foi a máquina à vapor (1700), depois a eletricidade e a linha de montagem e então o uso de CLP (controladores lógico programáveis). E agora chegamos a 4ª.

A grande mudança é que matérias-primas, máquinas, clientes, processos, fornecedores etc etc estarão integrados e conectados como que num universo de partes de um grande lego. E todas essas partes sendo independentes e autocráticas. Isso faz com que o planejamento e gestão deixe de ser centralizado e passe a ser distribuído. É um revolução e tanto.

Eu acredito e sou um entusiasta da ideia. Ao mesmo tempo, entendo que as transformações não começaram agora. Começaram em 1700 com a máquina à vapor. A grande diferença é a velocidade com que está acontecendo. Se foram necessários 200 anos para que a população mundial deixasse de ser rural para ser urbana, agora em 1 ou 2 décadas todo esse escopo de transformações que preconiza a Indústria 4.0 estará consumada.

Sobre o tema “o que é realidade, o que é ficção?”, qual é a sua visão mais otimista?

Uma das grandes discussões é o impacto sobre empregos. Há um consenso que a transformação será radical e que muitos (talvez a maioria) dos empregos atuais serão extintos, automatizados ou substituídos. A questão é que é relativamente fácil estimar os empregos que deixarão de existir mas muito difícil avaliar os novos que surgirão por conta dessa mudança. As mudanças são reais e iminentes. A ficção está no campo das nossas estimativas sobre como vai ser esse futuro. Como comentei no debate, o mote da tecnologia é que os benefícios são sempre de curto prazo. Mais tarde percebe-se os efeitos colaterais. Para ficar no mesmo exemplo, a máquina de vapor revolucionou a produção industrial mas, depois, nos deparamos com as chaminés nas cidades e o impacto ao meio ambiente.

Na minha visão, olhando o passado, o Homem se deu bem com as mudanças. A despeito de ainda não termos atingido um nível global adequado de justiça social e econômica, a nossa espécie sempre se adapta bem às transformações. O objetivo da tecnologia é o bem-estar da humanidade. O desafio é estender esse bem-estar a todos. Eu, particularmente, acredito que somos capazes.

E a visão pessimista?

O meu receio é que essas transformações disruptivas e tão rápidas agravem ainda mais as diferenças sociais. De outro lado, a própria tecnologia pode ser a solução. Um exemplo é o cloud computing: estruturas colaborativas e compartilhadas podem (e efetivamente têm) reduzir drasticamente custos flanqueando o acesso a cada vez mais pequenas e micros empresas.

Qual é o Brasil que deu certo?

Acho que Santa Rita do Sapucaí, o próprio evento HackTown, são exemplo do que deu (e dá) certo. Décadas atrás se alguém perguntasse qual a vocação de Santa Rita a resposta óbvia seria pecuária e café. E é hoje um cluster de eletrônica, um centro de referência na geração de conhecimento, um celeiro de startup inovadoras e, ao mesmo tempo, um pequena cidade com excelente qualidade de vida. Capaz de promover um evento tão sui generis quanto o HackTown. Por isso, a empresa na qual trabalho decidiu aqui iniciar uma nova operação industrial, um novo negócio. Tudo a partir da visão de uma mulher idealista que trouxe do exterior um encantamento por educação e eletrônica/tecnologia.

Mas o exemplo não é único. São José dos Campos SP é um polo aeronáutico hoje. Na década de 60 tinha, se muito 70.000 habitantes. Começou um indústria aeronáutica, ancorada no ITA, e faltava mão de obra. Os cérebros estavam em SP e RJ e não se dispunham a se mudarem para SJC. A ação orquestrada da comunidade, governos federais e municipais, trouxe daqui mesmo do Sul de Minas uma nova mão de obra. E transformou hoje SJC no que é.

Há outros exemplos. Oásis de excelência e sucesso.

Qual é o Brasil que deu errado?

Sem entrar em questões ideológicas, o Brasil dá certo quanto se juntam poder público e comunidade a fim de um propósito comum. E dá errado todas as vezes que o Estado assume um papel centralizador e autoritário.

O que você achou do Hacktown e Santa Rita do Sapucaí?

Achei sensacional. Desde o compartilhamento de tantas informações, passando pelo uso dos espaços públicos, as intervenções artísticas e culturais enfim… muito bom. Na minha opinião, são iniciativas como essas que criam uma cultura de excelência e inovação.

Deixaria uma mensagem para as organizações?

Acho que o alerta sobre a necessidade de estar antenado nas mudanças e na evolução tecnológica. Mais do que nunca está evidenciado que a adaptabilidade é questão de sobrevivência das organizações.

E para as pessoas?

A de que, como coloquei acima, a tecnologia deve ser aliada para o bem-estar da humanidade. Entendo esse meu objetivo como engenheiro, profissional industrial e cientista.


*Conteúdo da coluna Fora da Caixa, veiculado todo sábado na edição impressa do jornal Estado de Minas. Confira também os canais de vídeopodcast e instagram.

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