Entrevista: Filipe Ivo, embaixador da Singularity U em Belo Horizonte

Entrevista: Filipe Ivo, embaixador da Singularity U em Belo Horizonte

Filipe Braga Ivo, embaixador Singularity University Chapter Belo Horizonte

(Por Paola Carvalho*) – Ele foi escolhido para ser, em Belo Horizonte, o embaixador da Singularity University – universidade do Vale do Silício (EUA), apoiada pela NASA e Google, que tem o propósito de impactar positivamente 1 bilhão de pessoas no mundo. Aos 34 anos, a trajetória do administrador de empresas Filipe Braga Ivo passou a ser pautada pela certeza de que o mundo dos negócios tradicionais não motiva, mas sim o trabalho que gera esse impacto positivo para a sociedade. O seu desafio é disseminar conhecimento e engajar a comunidade regional, contribuindo para construção de um futuro de abundância. Ao mesmo tempo, é o diretor de novos negócios na Sunew, empresa líder mundial na produção de Filmes Fotovoltaicos Orgânicos (OPV), que quer revolucionar o uso dos espaços urbanos. Conheça mais sobre a sua história na entrevista a seguir.

Quando, em sua trajetória, surgiu o despertar para o universo digital?

Comecei a minha carreira como consultor de empresas na americana Accenture, uma das maiores consultorias do mundo. Mas o papel de espectador ou direcionador de esforços não era o bastante. Rapidamente transacionei a minha carreira me colocando como ator principal e fui empreender. O meu primeiro empreendimento, em 2008, foi uma fábrica de móveis de alto luxo, e alguns anos depois, com a venda do negócio, aventurei-me no setor da alimentação, com abertura de franquias da MegaMatte. O mundo dos negócios tradicionais, de novo, não me motivava o bastante. Foi então que me deparei e comecei a me interessar por tecnologia e todas essas mudanças que estavam ocorrendo de forma abrupta. Acredito que esse “despertar” ocorreu em 2012.

Por que estudar na Singularity?

Em paralelo à busca por conhecimento sobre tecnologias emergentes, futuro, crescimento exponencial, deparei-me com uma empresa startup nascente operando com uma solução baseada em sensoriamento, inteligência artificial e internet das coisas. Embarquei no desafio e aprendi muito, principalmente sobre a velocidade e agilidade necessária para operar negócios de base tecnológica. Foi mais ou menos nesse momento que conheci o Tiago Mattos, na minha opinião, a maior referência em futurismo no Brasil. Ele iniciou um curso, o Friends of Tomorrow, para difundir esse conhecimento. Daí para frente foram muitos livros, conversas, eventos e cursos sobre futurismo. Ficou muito claro para mim que minha busca empreendedora teria que ter um propósito direcionador e foi aí que a Sunew entrou na equação. Ao final de 2017, tomei coragem, investi 14,5 mil dólares e fui “beber água da fonte” na Singularity.

Quais pensamentos foram deixados para trás e quais foram os principais aprendizados?

A Singularity tem uma visão muito otimista e positiva sobre o futuro e tecnologias exponenciais. Acredito que os principais aprendizados estão relacionados a essa visão de mundo: 1) o futuro é muito melhor do que imaginamos, será um futuro de abundância; 2) o ritmo da mudança é exponencial, estamos vivendo um momento muito especial onde as tecnologias potencializam o ritmo da inovação, da disrupção; e 3) para estarmos preparados para esse futuro a principal habilidade necessária é aprender a aprender, a única certeza é a de que tudo irá mudar. O pensamento que deixei para trás nesse processo foi qualquer resquício da crença de que somos meros espectadores. Somos nós (eu e você) os responsáveis por essa transição para um futuro mais abundante.

Podemos te chamar de futurista? Qual é o seu papel de embaixador da Singularity em Belo Horizonte?

Eu diria que sou um entusiasta, estudioso, multiplicador, mas não me considero um futurista, deixo essa atribuição para aqueles que tem o estudo dos possíveis futuros como ofício. A Singularity tem um propósito muito ambicioso e poderoso, o de “impactar positivamente 1 bilhão de pessoas”. Os chapters têm o papel de disseminar conhecimento e engajar com a comunidade local, contribuindo para construção desse futuro de abundância. Portanto, enxergo o meu papel como um de tantos no mundo que querem garantir a sustentabilidade do nosso planeta e das próximas gerações. Operacionalmente falando, busco engajamento com pessoas e empresas que têm o mesmo propósito, e através de eventos e encontros proporcionamos a difusão desses conhecimentos, que empoderam os indivíduos a buscar o seu propósito e inspirar a ação.

Para você qual é a melhor definição de futurismo e como ele pode ser aplicado?

São várias as definições e abordagens sobre futurismo. Eu costumo entender o termo de uma forma bem simplificada: como o estudo e discussões sobre os possíveis futuros que nos aguardam, tanto extrapolando o presente como fazendo uma abordagem reversa (praticamente de ficção científica) questionando o que pode nos aguardar. E essa reflexão nos prepara para aproveitarmos melhor as oportunidades existentes e evitar as armadilhas. O futurismo costuma ser um tema bem abrangente, tratando de assuntos relacionados a tecnologias exponenciais, mas também transformações culturais, questões éticas, sociais, ambientais. A partir do momento que temos essa compreensão, nos preparamos para o futuro (ou possíveis futuros) e conseguimos tomar ações no âmbito pessoal, empresarial e social.

Quais são os impactos (futuro ou que já podemos observar) das mudanças em velocidade exponencial?

Acredito estar bem visível a todos que o momento é de transformação profunda. Nos tornamos “ciborgues”, seres integrados e dependentes da tecnologia. Os smartphones, smart watches, gadgets diversos são extensões do nosso corpo e servem como memória expandida, ferramenta de interconexão com o mundo, fonte de conhecimento infinito, habilidades aperfeiçoadas. Os avanços estão em todas as áreas, na medicina robotizada, biotecnologia, nanotecnologia, inteligência artificial, bots, realidade aumentada e virtual, impressão 3D, energia solar de última geração, algoritmos, big data, etc. Enfim, uma verdadeira avalanche em 3 revoluções tecnológicas distintas e simultâneas. Quais as três? Biotecnologia, Nanotecnologia, Robótica e IA. As próprias tecnologias exponenciais estão acelerando o ritmo da mudança. Os impactos são e serão generalizados, não consigo enxergar nenhuma área que sairá “ilesa”, e na minha visão por um prisma muito positivo. Teremos mais tempo para nós mesmos.

O que é inovação e sustentabilidade para você?

Hoje eu já não consigo mais ver uma diferenciação muito clara entre as duas coisas, para termos sustentabilidade é necessário inovar sempre. Empresas e indivíduos que não buscarem inovação a todo tempo ficarão para trás. Então parece que inovar deixa de ser inovador Para ser um padrão a ser seguido. Aí entra em cena o tema da moda: disrupção, o qual eu gosto muito, apesar de estar sendo tão amplamente utilizado e perdendo o sentido em muitos casos. Gosto muito de uma definição de inovação vs disrupção do David Roberts, da Singularity. Ele diz o seguinte: “Inovação é fazer as mesmas coisas melhor, em algum lugar entre inovação e disrupção fazemos coisas novas, e disrupção é fazer coisas novas que tornam as coisas antigas obsoletas”.

Você acredita ser necessário a transformação digital de negócios e pessoas? Como você percebe essa transição?

Negócios que não passarem por uma transformação digital irão desaparecer rapidamente. As empresas precisam começar a perceber que o seu principal ativo é informação. O mundo mudou, as empresas precisam se adaptar ao novo ritmo. Do ponto de vista do indivíduo, eu vejo um mundo de oportunidades. Está na hora de abraçarmos a mudança e deixarmos os velhos paradigmas para trás, precisamos desaprender para poder reaprender, e isso normalmente é o que as pessoas têm maior dificuldade. Eu vejo a transição como toda grande transformação já vivenciada pela humanidade (revolução industrial, internet, etc), a diferença agora será a velocidade da mudança.

Em que momento surgiu a Sunew? Qual é a trajetória da empresa?

Essa é uma história da qual me orgulho e me inspiro muito. Começa com um grupo de empreendedores que montaram um fundo de venture capital no ano 2000, a FIR Capital. Eles perceberam que os investimentos de maior sucesso do grupo eram aqueles onde eles entravam na gestão, na operação das empresas investidas, e à partir daí subverteram a lógica de investimento. Após repetir esse modelo, o grupo atraiu para o Brasil um centro de pesquisas referência na Europa, o CSEM (Centro Suíço de Eletrônica e Microssistemas). Nascia aí o CSEM Brasil, uma empresa 100% brasileira inspirada no modelo suíço de fazer inovação. O CSEM Brasil investiu, com o apoio do BNDES e Governo de Minas, em uma linha de pesquisas focada no desenvolvimento da tecnologia de painéis solares de próxima geração, os painéis solares orgânicos (OPV). Essa pesquisa reuniu especialistas de todas as partes do mundo, chegamos a ter 18 nacionalidades distintas. Ao final de 2015, chegamos à conclusão que era hora da produção em larga escala e colocação desse novo produto no mercado brasileiro e global. Surgia aí a Sunew.

O que são Filmes Fotovotaicos Orgânicos (OPV)? E de que forma podem revolucionar a matriz energética do país?

O OPV é a terceira geração de painéis solares (a primeira são os painéis mono e poli cristalinos e a segunda as tecnologias intituladas de filmes finos). Eles são chamados de orgânicos pois usam na sua constituição polímeros semicondutores impressos aplicados sobre um plástico PET, ou seja, materiais orgânicos, abundantes na natureza e não tóxicos. O processo de produção é o chamado de “impressão rolo-a-rolo” semelhante ao da indústria gráfica e têxtil, um processo contínuo, escalável e muito limpo. O OPV é super fino (0,3mm de espessura), leve (300g/m²), flexível, semitransparente e é a tecnologia de menor pegada de carbono entre todas as alternativas, ou seja, é a energia mais “verde” que se pode produzir. Eu costumo dizer que essa é uma tecnologia habilitadora de novos mercados, é possível a integração em fachadas de vidro, claraboias, veículos, mobiliário urbanos, gadgets, mochilas, estruturas flutuantes. O grande “pulo do gato” é que, devido às características do material e de seu processo produtivo, o seu potencial é de baixíssimo custo, podendo literalmente chegar próximo de zero. Uma verdadeira revolução.

Projeto WARKA WATER SOLAR, Haiti
Projeto social na Tanzânia

Teria um impacto no uso dos espaços urbanos também, não é mesmo? De que forma?

O OPV traz uma componente muito importante que é o design. É possível construirmos produtos que sejam bonitos e que se integram ao espaço urbano, em abrigos de ônibus, árvores de energia, estruturas tensionadas, etc, e de forma harmônica, trazendo bem-estar. Muito se fala em cidades inteligentes com sensoriamento, conectividade, internet das coisas, interconexão de serviços, e para energizar todos esses novos sensores e equipamentos diversos, a energia solar terá um papel fundamental, pois ela é distribuída, está em todos os lugares. E aí entra o OPV com toda a sua versatilidade.

OPTREE, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro
Abrigo de ônibus com OPV em São Bento do Sul, RS
Projeto Girassol em parceria com a FCA, integração de OPV em veículos

Onde podem ser encontrados hoje?

Já são várias cidades do Brasil onde se podem encontrar os produtos da Sunew, temos instalações de fachadas e claraboias em São Paulo, abrigos de ônibus no sul do país, estação tubo em Curitiba, caminhões com OPV rodando nossas estradas, árvores de energia no Rio, Beagá, São Paulo e outras cidades. Já rompemos as fronteiras do nosso país, com OPV na Suécia, Arábia Saudita, Alemanha, Indonésia, Estados Unidos, Hong Kong, instalações em comunidades isoladas no Haiti e na África. Abrimos escritório no início desse ano na Califórnia e planejamos expandir operações para os Emirados Árabes em breve.

Minas lidera a corrida solar no país. Como a Sunew e o OPV podem acelerar essa realidade?

A Sunew é, hoje, líder mundial na fabricação de OPV com a maior infraestrutura de produção instalada, em Belo Horizonte. Temos orgulho de sermos uma empresa mineira e muito potencial para crescermos e nos consolidarmos como líder nos próximos anos. São diversos os desafios que temos enquanto empresa em uma indústria nascente, mas temos confiança de que estar no Brasil com um mercado tão grande é uma vantagem competitiva e diferencial enquanto negócio.

E quais são os empecilhos para uma expansão mais intensa em todo o país?

Como qualquer outra empresa estabelecida no país, nós compartilhamos de todos os desafios de se empreender por aqui. Mas eu citaria 3 elementos que dificultam ou atrasam um pouco o crescimento: 1) temos sim o “complexo de vira-lata” e com isso a dificuldade de as pessoas entenderem o que estamos fazendo por aqui na Sunew é tremenda, só acreditam de verdade depois que nos visitam e conhecem de perto a nossa estrutura e tecnologia. Por termos historicamente no país foco em commodities, são poucos os exemplos de empresas que desenvolvem aqui no Brasil tecnologias de alto valor agregado; 2) os investidores não estão muito acostumados (ou confortáveis) com o investimento em empresas de base tecnológica, então é um desafio levantar investimentos de grande porte no país; e 3) a burocracia, greves constantes e variação cambial, são empecilhos que dificultam os negócios, algumas vezes uma mera importação de insumo leva meses.

O que acha do clichê “o futuro já chegou”?

As mudanças que estamos vivenciando são tantas e tão profundas que eu realmente me sinto assim, então acho ser uma frase bem adequada para o momento atual. Quando escuto alguma frase que vá nesse sentido sinto uma necessidade de ação imediata, é como se a continuação automática fosse: “e o que você está fazendo parado aí?”. Devemos nos colocar como agentes de transformação, somos nós que iremos construir juntos um futuro (ou presente) melhor e de abundância.

Quais são os planos e a programação do chapter em BH?

Estamos programando seis eventos até abril de 2019. O intuito é que esses eventos sejam bastante acessíveis em termos de valores (cerca de R$ 50). Para isso estamos em busca de patrocinadores que queiram se engajar com essa proposta. Estamos desenhando eventos temáticos e que sejam relevantes nesse contexto de transformações profundas: Futuro da Comida (será o primeiro, em 04/10), Organizações Exponenciais de Minas, Futuro da Energia, Inteligência Artificial e Blockchain e por aí vai.

1 Comentário

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rodrigoresponder
setembro 19 at 11:09 AM

O pessoal está ativo. Vamos em frente

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