Entrevista: Thomas Eckschmidt, do Capitalismo Consciente Brasil

Entrevista: Thomas Eckschmidt, do Capitalismo Consciente Brasil

Foto: Mike Petrucci/Unsplash

(Por Paola Carvalho*) – Ganha força uma nova maneira de fazer negócios e ela faz parte de um movimento chamado “capitalismo consciente”. Ele é baseado em um propósito maior e de impacto positivo na sociedade, reconhece a interdependência dos participantes, cria uma cultura engajadora e é conduzido por um líder consciente. E isso permite que a humanidade atinja novos padrões de riqueza para além das tradicionais medidas financeiras.

Capitalismo consciente seria uma filosofia de negócios baseada que acredita no lucro como meio e não o fim em si. De acordo com o cofundador do Capitalismo Consciente Brasil, Thomas Eckschmidt, vivemos um momento especial: há 200 anos, o mundo tinha menos de 1 bilhão de habitantes, a riqueza per capita era ao redor de US$ 500, a expectativa de vida chegava aos 30 anos e a pobreza absoluta atingia 95% da população.

Hoje acredita-se que os 15% de pobreza absoluta podem ser erradicados antes do final do século, vivemos em média mais de 70 anos, a riqueza per capita excede a US$ 7.500 e somos mais de 7 bilhões de habitantes. “Isso tudo somente foi possível graças ao capitalismo”, justifica.

Mesmo com todo esse avanço, pondera Eckschmidt, o capitalismo fez muito estrago pelo caminho. Ainda assim, hoje vivemos em um mundo abundante, com mais informações e conectado. “Isso faz com que o nível de consciência seja mais elevado e que, de forma coletiva, não vivemos em subsistência. Dessa forma, começamos a procurar mais propósito nas nossas relações pessoais e comerciais”, afirmou. Surgem, então, expressões que se popularizam cada dia mais no ambiente empreendedor, como propósito e impacto positivo.

Essa foi uma discussão provocada nessa semana, em Belo Horizonte, pelo projeto Voo para uma Nova Economia, da Editora Voo, em parceria com a We.Bee, uma hospedaria de projetos de impacto. Nessa semana, trouxeram Thomas Eckschmidt para o lançamento do livro Capitalismo Consciente Guia Prático – Ferramentas para transformar sua organização.

Thomas Eckschmidt, cofundador do Capitalismo Consciente Brasil

1. Por que criar o Capitalismo Consciente Brasil?

O Capitalismo Consciente Brasil chegou oficialmente quando criamos aqui uma Organização Não Governamental (ONG) espelhada no movimento mundial Capitalismo Consciente, em outubro de 2013. Mas, desde 2010, quando tive o meu primeiro contato com o movimento nos Estados Unidos, eu comecei a compartilhar os fundamentos do capitalismo consciente com meus parceiros de negócio através de nossa forma de trabalhar. Em 2011, fui convidado por um colega para integrar um grupo chamado de Rede de Líderes Conscientes e, depois de dois anos da minha evangelização sobre os fundamentos do capitalismo consciente, foi que nasceu o grupo que fundou o movimento no Brasil.

2. O que você chama de capitalismo consciente?

Capitalismo consciente é uma filosofia de negócios baseada na ideia que o lucro é meio e não o fim em si. É possível fazer o bem e ganhar dinheiro ao mesmo tempo. Aprendemos que o objetivo da empresa é gerar lucro, mas isso não está correto. O propósito de qualquer organização é gerar valor para a sociedade. O lucro é consequência do valor gerado.

Importante lembrar que uma empresa que não gera lucro é irresponsável socialmente. E que qualquer organização que não gera valor está destinada a sumir. Até mesmo uma organização política, que perde espaço através da democracia ou eleição.

3. Como você via o contexto econômico na época da criação do movimento no Brasil?

Vivemos em um momento muito especial. Há 200 anos, o mundo tinha menos de 1 bilhão de habitantes, a riqueza per capita era ao redor de US$ 500, a expectativa de vida chegava aos 30 anos e a pobreza absoluta atingia 95% da população. Hoje acreditamos que os 15% de pobreza absoluta podem ser erradicados antes do final do século, vivemos em média mais de 70 anos, a riqueza per capita excede a US$ 7.500 e somos mais de 7 bilhões de habitantes. Isso tudo somente foi possível graças ao capitalismo. A combinação de talentos de indivíduos formando empresas para criar excedente de riqueza que era trocada voluntariamente entre as pessoas.

Mesmo com todo esse avanço reconhecemos que o capitalismo fez muito estrago pelo caminho. Por outro lado, hoje vivemos em um mundo mais abundante do que a 200 anos atrás, mais conectado, mais acesso à informação e com o mais alto nível de escolaridade da história. Isso faz com que o nível de consciência seja mais elevado e que de forma coletiva não estamos mais vivendo em subsistência e começamos a procurar mais propósito nas nossas relações pessoais e comerciais. Isso faz com que a geração de valor e um propósito elevado sejam o caminho para os negócios e interações, permitindo que a ideia de um capitalismo consciente ganhe espaço e de forma rápida e pragmática.

4. O que é o projeto hoje?

O projeto começou como um movimento para conscientizar líderes de uma melhor forma de fazer negócios, fazer o bem é o melhor negócio e demonstrar que o resultado financeiro como consequência é até 10 vezes superior na avaliação de longo prazo (15 anos). Em seguida evoluiu para inspirar líderes e suas empresas através de eventos internacionais e locais para compartilhar casos e historia de sucesso.

Nessa jornada faltava uma dimensão de aprendizado e educação. Eu desenvolvi um programa de implementação de Fundamentos do Capitalismo Consciente com mais três parceiras (Graziela Merlina, Carolina Zulueta e Giovanna Gaiarim). Esse programa evoluiu e já esta sendo aplicado em mais de cinco países. Já foi realizado mais de 10 vezes no Brasil.

Mais recentemente criei uma autoavaliação chamada de Conscious Business Activator, em parceria com os lideres de outras filiais do Capitalismo Consciente (Australia e San Francisco), para apoiar as empresas e seus líderes a implementar os fundamentos do capitalismo consciente em suas organizações e facilitar a navegação do conteúdo do livro Capitalismo Consciente Guia Prático.

5. Você percebe, agora, alguma mudança por parte do consumidor, da sociedade como um todo?

Sim, a intenção de consumir em consumir o que tem mais valor cresce continuamente. Mas ainda existe uma distância entre a intenção e a ação. Os indicadores são positivos e mais cedo do que imaginamos, as empresas que não gerem valor para a sociedade vão estar com os dias contados. Estamos em um momento histórico de grande mudanças e muitas vezes não percebemos pois estamos no olho do furacão.

6. Quais são os principais pontos do Guia do Capitalismo Consciente que podem provocar transformações?

O Guia Prático traz um passo a passo para qualquer organização implementar os fundamentos de um capitalismo mais consciente e se prepara para a nova economia. Nesse livro você pode entender os conceitos, se inspirar em exemplos de casos reais e transformar a sua organização. Uma vez que você conhece esses fundamentos, fica mais fácil de alinhar a empresa nessa nova filosofia de negócios.

7. Como foi a sua experiência em Belo Horizonte?

Belo Horizonte sempre teve uma recepção muito positiva a essas ideias. Com a publicação desse livro, agora temos a oportunidade de engajar e avançar para ação de transformação.

8. Quais são os planos do Capitalismo Consciente para 2019?

Em 2019 estamos estudando novas formas de levar esse conteúdo para mais organizações e seus líderes. O desenvolvimento da ferramenta de ativação vai ser mais amplamente divulgada e irei formar consultores para ajudar as empresas a passarem por essa transformação.

9. Quais são os seus alertas e dicas para nós consumidores?

Nós, como consumidores, votamos diariamente naquelas empresas e produtos que queremos ver presente em nossas vidas amanhã e depois. A cada real gasto, estamos avalizando um produto ou serviço ou empresa que queremos parte de nossas vidas no futuro. Não é fácil mudar 100% de nosso orçamento para aquilo que queremos, mas se hoje decidimos que 10% será gasto em coisas que são realmente importantes, fomentando esses negócios e empresas, e a cada ano subimos esse valor mais 5% do nosso orçamento e assim por diante, em 10 anos mudamos o mundo e nosso redor.

*Conteúdo da coluna Fora da Caixa, veiculado todo sábado na edição impressa do jornal Estado de Minas. Confira também os canais de vídeopodcast e instagram.

Leia mais
Mais robôs do que humanos no trabalho em 2025
Entrevista: Filipe Ivo, embaixador da Singularity U em Belo Horizonte
HackTown une tradição e inovação, tecnologia e humanidade
Educação e tecnologia: Minas Gerais tem 11% das edtechs brasileiras

Compartilhar

X