Indústria 4.0: Confira entrevista com Courtnay Guimarães

Indústria 4.0: Confira entrevista com Courtnay Guimarães

Festival Burning Man (África)

(Por Paola Carvalho*) – Courtnay Guimarães, 48 anos, é economista sócio-fundador da consultoria de transformação digital e investimentos Idea Partners; integrante da empresa de infra-estrutura de blockchain Miltiledger; professor de gestão de inovação e complexidade; doutorando em tecnologia aplicada na medicina; apaixonado por inteligência artificial.

No último 8 de setembro ele participou do painel “A Quarta Revolução Industrial: o que é realidade, o que é ficção”, durante o HackTown, um festival sobre criatividade e inovação realizado em Santa Rita do Sapucaí e que reuniu cerca de 5 mil pessoas por quatro dias na cidade do interior de Minas Gerais. Confira abaixo entrevista sobre o tema.

O que é a quarta revolução industrial para você?
De tempos em tempos, temos um novo modismo propagado na indústria de administração, este é o ultimo modismo. Trata apenas de tentar categorizar a imensa convergência entre globalização, muitas tecnologias em fase de maturação, uma digitalização enorme das pessoas (celulares como plataformas, redes de dados e serviços globais), culminando com a economia monetária global das criptomoedas. Com 32 anos de carreira, ja vivi todo tipo de modismo e hype, seja tecnológico, seja de gestão, seja econômico-social. Este é apenas mais um buzzword num mundo afundado em poluições ideológicas, mas perdido em significado intrínseco.

Sobre o tema “O que é realidade, o que é ficção?”, qual é a sua visão mais otimista?
É a disponibilização de possibilidades muito mais amplas e irrestritas a todos, pela conectividade e oferta de tecnologias, conhecimento e contatos a todos. Se você sabe inglês, tem internet e uma plataforma qualquer (tablet, pc ou mesmo apenas celular), já consegue se beneficiar imensamente. Isso faz com que qualquer um, em qualquer lugar do planeta, possa existir numa realidade mais ampla e global.

E qual seria a sua visão pessimista?
A tecnologia ainda vive a serviço do capitalismo amoral (no sentido mais amplo, o que não tem julgamento) e acaba gerando tantos grandes abismos sócio-econômicos quanto ambientes distópicos perturbadores. Somos viciados em estar on-line, nossas emoções em grande parte são comandadas por estímulos subconscientes em redes sociais e estamos nos transformando em zumbis de dados (produzimos muitos dados sobre nossa existência, mas existimos no automático). Jaron Lanier tem nos chamado atenção para isso e, lá em 1932, Adous Huxley já nos alertava.

Por que estudar medicina neste momento?
Estou estudando tecnologia aplicada a medicina porque deve ser a vocação espiritual da família (tenho dois irmãos na área de saúde), mas também porque é aonde a tecnologia pode fazer muita diferença para a sociedade no momento.

Qual é o Brasil que deu certo?
Dos jovens inconformados, mas conscientes e atores protagonistas. A turma que empreende, tem 103810318 atividades, faz ação social, agita e faz acontecer. Eles me dão esperança que finalmente estamos construindo algo diferente.

Qual é o Brasil que deu errado?
Dos jovens idiotizados pela massificação das culturas, do consumismo e da falsa impressão que “merecem” tudo, afinal estão mais “preparados” que todas as outras gerações. Estes ainda são a ancora do país e representam o pior que podemos esperar do futuro, futilidade e inutilidade.

Foto: Lucas Nolasco/Simi

O que você achou do Hacktown e Santa Rita do Sapucaí?
Sou suspeito porque é meu evento preferido pela absoluta diversidade e profundidade de temas. Meu conceito ideal de comunidade múltipla, evento como o Burning Man (foto acima) e apenas com chamariz tecnológico. Eu adoro a cidade, sempre venho com a família inteira e ficamos numa fazenda de café secular, conservada e restaurada com primor. Minas Gerais é o Texas do Brasil, precisa valorizar mais seus talentos (culturais, empresariais, empreendedores e acadêmicos) e permitir que mais pessoas conheçam seus tesouros ocultos.

Deixaria uma mensagem para as organizações?
Todas as organizações morreram. E todas, doravante, serão eternas. Organizações são propósitos em forma de grupo de pessoas, os propósitos serão perenes, a maneira como buscamos atingí-los é que mudará o tempo todo. Daí, todas as formas organizacionais se transformarão o tempo todo.

E para as pessoas?
Acabou a era da falsa segurança de estabilidade. Só a mudança é garantida e estamos na era da liberdade completa (o que significa responsabilidade total pelos seus próprios atos). Não tem mais governo, empresa, sociedade, família, ninguém pra terceirizar essa responsabilidade. Bem-vindos ao deserto do real.

*Conteúdo da coluna Fora da Caixa, veiculado todo sábado na edição impressa do jornal Estado de Minas. Confira também os canais de vídeopodcast e instagram.

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