O fim do ingresso de papel e a consolidação da Sympla - Blank Space

O fim do ingresso de papel e a consolidação da Sympla

 

Se você já precisou comprar um ingresso on-line para participar de um evento, congresso, curso ou workshop provavelmente conhece a Sympla. A startup (empresa de base tecnológica com produto ou serviço escalável) foi fundada em 2012, em Belo Horizonte, e hoje é a maior plataforma para venda de ingressos, inscrições e gestão de eventos no Brasil. É líder no segmento “faça você mesmo”, onde qualquer pessoa, produtor cultural ou não, consegue organizar o seu evento por meio do site. Em seis anos de operação, vendeu mais de 16 milhões de ingressos, em mais de 2 mil cidades brasileiras e 200 mil eventos. Em 2017, a empresa movimentou mais de R$ 200 milhões, um resultado 120% maior do que o registrado no ano anterior. Por trás deste sucesso estão aproximadamente 200 funcionários (e estão contratando outros 32 neste momento), divididos entre a sede Belo Horizonte e outros cinco escritórios, em São Paulo, Recife e Goiânia, além de Porto Alegre e Rio de Janeiro, onde acabam de chegar. E por trás de toda essa estrutura estão três sócios, os irmãos Rodrigo e Marcelo Cartacho e David Tomasella.

Rodrigo Cartacho é, normalmente, o porta-voz da startup. É ele quem costuma representar a Sympla em palcos de premiações e demais eventos. Ao final de sua fala admiradores o cercam e, na última FINIT (Feira Internacional de Negócios, Inovação e Tecnologia), realizada em novembro, no Expominas, chegou a posar para selfies com jovens da plateia. “É uma trajetória muito difícil e, definitivamente, nada “glamourosa”. Se engana quem acha que é tudo diversão porque temos mesa de pingue-pongue e área de descompressão. Realmente o ambiente é incrível. Mas o que gostamos de frisar é que: o intenso é garantido. Mas não pode ser tenso. Este equilíbrio é fundamental”, afirma.

Para 2018, mesmo sendo um exercício complexo do ponto de vista político-econômico, Cartacho acredita que a Sympla possa alcançar mais uma vez um crescimento percentual de três dígitos – assim como se repetiu nos últimos seis anos. Em outubro passado recebeu um aporte de R$ 15 milhões da Movile, uma gigante de conteúdo e marketplaces móveis, participante de negócios como o iFood e o Rapiddo. Em junho de 2016, a empresa já havia investido R$ 13 milhões. O montante será aplicado no refinamento de produtos e serviços. Já do lado da Movile, como já disse o cofundador e diretor de novos negócios Eduardo Lins Henrique, a Sympla seria um componente para cumprir e meta de impactar positivamente a vida de um bilhão de pessoas. Sim, há aqueles que querem atingir 1 bilhão de dólares e outros, 1 bilhão de pessoas.

 

Rodrigo Cartacho: CEO da Sympla

Entrevista: Rodrigo Cartacho

 

A Sympla começou em uma sala de um prédio da Savassi. Qual é o tamanho dela hoje?
Rodrigo Cartacho – Em nossa sede em BH, a Sympla ocupa atualmente nove andares no mesmo prédio na Savassi, começamos pela cobertura e fomos crescendo e inaugurando novas salas e andares. Na próxima semana iremos inaugurar um novo andar com um auditório que se conecta ao andar de descompressão que temos hoje na empresa. Hoje a Sympla conta com aproximadamente 200 colaboradores, sendo 175 deles em BH, e 25 em outras capitais onde temos escritórios. Vale lembrar que temos 32 vagas abertas nesse momento, ou seja, continuamos expandindo o nosso time com diversas oportunidades. Além da nossa sede em BH, temos escritórios em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Goiânia e recentemente abrimos operação em Porto Alegre.

Quais são os planos de crescimento para 2018 e além?
Rodrigo Cartacho – A Sympla vem crescendo constantemente 3 dígitos ao ano, mesmo no seu sexto ano de operação. No ano de 2017 crescemos 120% em relação ao ano anterior. Para 2018 seguiremos focados em expandir nossa tecnologia e operação, entregando sempre a melhor experiência tanto para os produtores de eventos como para os compradores. Tem muita novidade vindo por aí.

Para você, quais são os motivos de tamanho sucesso da Sympla? Em algum momento você considerou que não daria tão certo? E o que teria feito vocês seguir em frente?
Rodrigo Cartacho – A Sympla sempre acreditou que a experiência e simplicidade (daí vem o nosso nome) são os valores mais importantes na criação de uma empresa que não está preocupada com o crescimento no curto prazo, mas sim em ser referência e que as pessoas gostem e acreditem no longo prazo. Muitas vezes tomamos decisões que olhando para o curto prazo não parecem ser as melhores, mas é porque acreditamos em criar uma empresa sólida e fiel aos seus valores e propósito ao longo de muitos anos. Muitas vezes as pessoas me perguntam do que tenho mais orgulho na Sympla, e tenho essa resposta muito clara. Muito mais do que o crescimento e o tamanho que a empresa alcançou, temos muito orgulho da história que criamos. Uma empresa humana, que acredita que é possível ser uma empresa grande, sem abrir mão de quem somos. Claro que nessa trajetória, desafios não faltaram e não faltarão. Construir uma empresa inovadora em um ambiente de incerteza e na velocidade que viemos crescendo não é tarefa fácil. Se fosse escrever em um caderno todas as vezes que pensamos que poderia não dar certo, faltariam folhas. É uma trajetória muito difícil, e definitivamente, nada “glamourosa”. Se engana quem acha que é tudo diversão porque temos mesa de pingue pongue, área de descompressão, etc. Realmente o ambiente é incrível. Mas o que gostamos de frisar é que: o intenso é garantido. Mas não pode ser tenso. Este equilíbrio é fundamental.

Até que ponto pesou fazer parte do San Pedro Valley? O que essa comunidade significa para você e como está sendo a transformação dela do seu ponto de vista (de comunidade de “startupeiros” iniciantes para de grandes empresas, ao lado de outras como Rock Content, Hotmart, Méliuz…)?
Rodrigo Cartacho – Criar a Sympla dentro do San Pedro Valley foi fundamental para a história da Sympla. O SPV é uma comunidade que se destaca muito pela parceria e a troca de conhecimento constante e gratuita entre as startups. A oportunidade de trocar as lições aprendidas diminui a curva de aprendizado, poupa tempo, recursos e potencializa as oportunidades de todo o ecossistema. Não há uma semana sequer que eu não me reúna com pelo menos uma startup do San Pedro Valley para troca de experiências. Da mesma forma, os nossos colaboradores e suas equipes também se reúnem frequentemente para acelerar o aprendizado sobre temas específicos. Buscamos crescer juntos para crescer mais rápido.

A Sympla foi eleita entre as 30 melhores empresas do Brasil para se trabalhar. Qual é o cuidado especial que a Sympla tem com os Symplers?
Rodrigo Cartacho – A Sympla é uma empresa moderna e descolada, com um ambiente de trabalho diverso, informal e dinâmico. Cultura na Sympla é um valor levado a sério e é inegociável. Começa no processo seletivo, onde além da análise técnica para a vaga, focamos também em enxergar que a pessoa se encaixa nos valores de nossa cultura. A definição da contratação não é feita pela liderança, mas sim em comitê. Todas as pessoas da Sympla que participam de alguma etapa do processo seletivo, independente do setor ou da vaga, são parte deste comitê e a contratação é horizontal, precisando de consenso entre todos, afinal, muito mais do que candidatos bons tecnicamente, estamos escolhendo as pessoas que queremos trabalhar e conviver todos os dias. Hoje, para se ter uma ideia da diversidade do nosso time, basta olhar para alguns dados dos nossos 200 Symplers: são 51% de mulheres e 49% de homens, de 6 nacionalidades diferentes. 49% desta equipe tem entre 25 e 30 anos.

 

Funcionários da Sympla: Symplers

 

Qual é o seu entendimento sobre o atual momento em que vivemos e o futuro? Ainda na transição da era industrial para a digital? E como fica o ingresso de papel e o virtual? E o dinheiro? E novos métodos de pagamento, como criptomoedas?
Rodrigo Cartacho – Estamos vivendo um momento único na história. Uma etapa de extrema transição. Muito além de uma revolução tecnológica, acredito que estamos vivendo uma revolução de modelos de negócios e plataformas. Se pensarmos que o smartphone como conhecemos hoje nasceu há 10 anos, e que ele apenas se popularizou em massa há 5 anos no Brasil, e que hoje todos os brasileiros “vivem” nos seus celulares, imagine o que irá acontecer nos próximos 10 anos. É uma época difícil de prever, mas uma coisa é certa: todas as indústrias, mercados e plataformas serão transformados nos próximos anos. Todas!

Que transformações você enxerga para as nossas rotinas e sociedade?
Rodrigo Cartacho – É difícil olhar para o futuro em um ambiente de tantas transformações, mas deveríamos olhar com mais atenção tudo o que está sendo construído e transformado recentemente. Nas últimas décadas, passamos por duas grandes e profundas revoluções, a globalização e a da tecnologia, que quando somadas e sem a devida atenção, podem gerar um efeito perigoso para a sociedade. Em um ambiente competitivo global, no qual tecnologia e informação se tornam “commodities”, existe uma tendência de maior discrepância social e econômica, em escala mundial. Esta pauta é muito importante e precisamos encontrar um modelo de equilíbrio dentro dessa nova e tão recente realidade que estamos vivendo.

Quais são os seus propósitos, princípios, paixões que te norteiam hoje? O que sobre a vida faz mais sentido hoje do que antes?
Rodrigo Cartacho – Eu sempre acreditei que a vida é uma só. Que devemos vivê-la de maneira plena, focando em construir para nós e para a sociedade aquilo que acreditamos e queremos deixar de legado. Cada etapa que vivi foram alicerces fundamentais para a construção de quem sou hoje, claro, e sigo em construção. Mas acredito que esta construção não foi ao acaso. Na minha opinião, nós devemos buscar entender o que nos norteia, nosso propósito de vida e criar nossos caminhos para alcançá-lo. Certamente não será fácil, nem sairá exatamente como planejamos, mas é assim que construiremos a vida que queremos, que nos deixará feliz ao olhar para trás e ver que o caminho valeu a pena. Não apenas por nós, mas por todas as pessoas que conseguimos impactar de maneira positiva nessa caminhada.

Vejo que você muito curte Belo Horizonte. Quais são os lugares, movimentos, negócios, iniciativas que vc conhece e admira por aqui?
Rodrigo Cartacho – Eu nasci e cresci em BH. Morei fora quase 10 anos e quando retornei há 6 anos encontrei uma cidade totalmente diferente. Uma cidade em efervescência. Acredito que Beagá está vivendo um momento único, de transformação em muitos sentidos. Tem várias iniciativas nascendo e crescendo ao mesmo tempo na cidade, sejam startups, empresas transformadoras, coletivos, utilização de espaço público… Alguns exemplos são o San Pedro Valley, SEED, Instituto Amado, CURA, Mooca, Guaja, Ateliê Wäls… São muitos exemplos com um denominador comum: são iniciativas que estão transformando a cara de BH em um hub de inovação e criatividade. É um momento único de se estar e viver em BH. #SouFã

O que é empreender e ficar em Belo Horizonte?
Rodrigo Cartacho – Estamos vivendo uma época em que empreender deixou de ser sinônimo de ir para São Paulo, felizmente. Exemplo disso é o próprio mercado de startups, antigamente era muito difícil para uma startup crescendo se manter na cidade e hoje acontece o contrário. Viajo muito pelo Brasil e muitas vezes me perguntam de onde sou, quando respondo que sou de BH, algumas pessoas falam: “ah, está explicado o crescimento da empresa”. Hoje Belo Horizonte se tornou referência em startups, assim como em outros mercados. Tenho muito orgulho todas as vezes que mostro para alguém nossos escritórios em SP, Rio, etc, (que são bem legais!) quando dizem “wow, que escritório incrível”, e minha resposta é “Este é só um puxadinho. Precisa conhecer a nossa sede em BH”.

Quais as lições o empreendedorismo lhe deu que você gostaria de compartilhar com iniciantes?
Rodrigo Cartacho – Desafios são parte constante do dia-a-dia do empreendedor. A cada nova fase, mudam-se os desafios, mas a intensidade deles se mantêm. Mas acredito que isto é realmente o que nos move, e as lições aprendidas são importantes para a curva de aprendizado. Velocidade e assertividade são fundamentais para o empreendedor, procurar sempre aprender com quem já fez, independentemente se o empreendedor teve sucesso ou falhou, pode acelerar o seu aprendizado e aumentar (bastante!) sua chance de sucesso.

Quatro indicações de livros

> A startup enxuta – Como os empreendedores atuais utilizam a inovação contínua para criar empresas extremamente bem sucedidas (The lean startup, em inglês), de Eric Ries (Leya)

> O lado difícil das situações difíceis – Como Construir Um Negócio Quando Não Existem Respostas Pronta (The hard things about hard things, em inglês), de Ben Horowitz (Martins Fontes)

> Um novo jeito de trabalhar – O que o Google faz de diferente (Work Rules, em inglês), de Laszlo Bock (Sextante)

> Essencialismo – A disciplinada busca por menos (Essentialism: The disciplined pursuit of less, em inglês), de Greg McKeown (Sextante)

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