Facundo Guerra: empreendedor subversivo - Blank Space

Facundo Guerra: empreendedor subversivo

Facundo Guerra, autor do livro Empreendedorismo para Subversivos (Planeta, 2017)

O compartilhamento de informações e bens (ou seja, a internet) derrubou o lucro de empresas e indústrias. Jogou o capitalismo para o fundo do poço? Em meio a esse novo-velho debate que divide opiniões, tendências do “pós-capitalismo” começam a ser popularizadas. Um ponto de vista pode ser encontrado no livro Empreendedorismo para subversivos (editora Planeta, 2017), escrito pelo empresário Facundo Guerra, mais conhecido como “o dono da noite de São Paulo”. Como ele mesmo diz, é um título irônico, assim como grande parte do “guia para abrir o seu negócio no pós-capitalismo”. Independentemente do entendimento de quem o lê, é inevitável a certeza quanto ao poder de tradução de novos conceitos e teorias. Hoje, aos 44 anos e com dez empreendimentos em atividade, desafia a tradicional reputação da capital paulista – a do trabalho, do dinheiro e do trânsito -, sendo um dos responsáveis pela revitalização do cenário cultural da cidade. “É importante ter um propósito, um objetivo que vá além de ganhar dinheiro”, destaca.

Como chegou lá? Engenheiro de alimentos, jornalista internacional e político, mestre e doutor em Ciência Política pela PUC-SP, resolveu em 2005 declarar independência ao chegar bem perto de ser CEO no universo corporativo. E iniciou, aos 31 anos, uma série de empreendimentos bem-sucedidos. O Vegas, que durou seis anos, ajudou a formar a região que hoje é chamada de Baixo Augusta, além dos bares Voltz e Z Carniceria. Inaugurou ainda o Lions Nightclub e o Club Yatch, que trouxeram mais uma vez o eixo do entretenimento noturno para o centro da cidade. Tem também o Cine Joia, o Riviera, o PanAm, o Frank Bar e o Mirante 9 de julho, re-significando cada um dos espaços ocupados. Recebeu prêmios por essa trajetória e foi eleito um dos 100 empreendedores mais influentes do mundo pela revista norte-americana Good Magazine em 2016. Ganhou o título de cidadão de São Paulo. Filho, neto e bisneto de comunistas, ele nasceu em Córdoba (Argentina). Sim, Facundo também fracassou e, na narrativa, dá dicas para outros não cometerem os mesmos erros.

O livro é, porém, resultado de uma amizade com o editor-chefe da editora. “Tudo o que eu faço na minha vida é por relação afetiva. Ele me fez o convite e eu não soube dizer não. Mas acredito não ter nada de tão importante para deixar impresso para a prosperidade”, pondera Facundo, que diz nunca ter lido um livro de “empreendedorismo-auto-ajuda” por entender que a atividade humana está ancorada é na política. Seria uma modéstia? Talvez. Vinda de um misto de experiências, seja como funcionário de multinacional, ou estudante de anarquia, ou empreendedor serial que não diferencia o seu tempo de lazer do seu tempo de trabalho.

Facundo Guerra x Facundo Guerra

 

PESSOA FÍSICA X PESSOA JURÍDICA

Eu não consigo diferenciar a pessoa física da pessoa jurídica. Você tem uma ética, independentemente de ser um funcionário, um cliente ou um familiar. Eu sei que a pessoa jurídica é um estatuto que vem do fim do século XIX/início do século XX, com a revolução industrial, mas da mesma forma que você não consegue empregar um estatuto de pessoa jurídica para uma constituição subjetiva, como uma procuração, você também não pode assumir duas personas. Costumo dizer que é coisa de mafioso, de mau caráter. A mesma ética que uso com a minha filha, eu uso com o meu funcionário. Não adianta ficar nas redes sociais falando “Fora Temer” e, em casa, ficar pagando mal a faxineira.

REDES SOCIAIS X VIDA REAL

Quando eu fui matricular minha filha na escola, eu quis saber quanto o professor estava ganhando. Se eu estou pagando 1.500/2.000 reais ou mais em uma mensalidade – porque infelizmente ainda é preciso pagar escola particular já que a escola pública é sucateada -, eu preciso saber se a escola não está pagando piso de sindicato, pois eu não estou pagando o mínimo de uma mensalidade. Foi incômodo para a escola, né?! A gente parte do pressuposto, e é justificativa de grande parte de quem é empresário, de que estamos dando emprego, fazendo o papel. Mas muita gente é miserável justamente por causa do emprego que ela tem.

Como funciona em seus empreendimentos? Como é a sua relação com os seus empregados?

Eu tenho cerca de 200 funcionários, entre diretos e indiretos. Primeiro, todo mundo sabe o quanto eu ganho ou o que deixo de ganhar. Segundo, o meu pró-labore não pode ser cinco vezes maior do que o menor salário da empresa. Eu não sou muito educado para o mundo dos negócios, nunca li livro de auto-ajuda sobre empreendedorismo. Tenho um certo pré-conceito.

Mas você escreveu um…

Esse tipo de literatura muitas vezes podem ser tóxicas. Partem do pressuposto da meritocracia, que é um grande conto de fadas do capitalismo. Empreendedorismo é uma atividade humana como qualquer outra, muito superestimada nos últimos tempos, acho que um pouco por conta da crise econômica. Empreendedorismo virou uma palavra de ordem porque a gente não tem o que colocar no lugar do emprego do que o “faça você mesmo”. Para mim, qualquer atividade humana está ancorada na política. A política é uma relação de cima para baixo, mas é também uma relação ponto a ponto. Então grande parte do que eu aprendi e prego no livro vem do mestrado e do doutorado em ciência política.

A construção do sistema dos 3 Ps (propósito, política e problema) veio daí?

Essa foi uma construção que eu fiz para tentar vender livro, né?! Foi uma das primeiras preocupações que eu tive. Bom, vou escrever o que eu aprendi ao longo dos últimos 15 anos. Mas, para isso, tenho que criar um sistema didático. E aí analisei o que fiz na base do feeling e intuição e construí um arcabouço teórico.

DIREITA X ESQUERDA

Depende em relação a quê? Se for em relação ao Trump ou Temer, absolutamente esquerda radical. Se é em relação a um anarquista black bloc, muito provavelmente direita. Isso não quer dizer que eu seja centro. É que posições entre esquerda e direita são obsoletas hoje em dia. Eu sou capitalista porque – felizmente ou infelizmente – é a melhor maneira de trocar energia entre os humanos. Já testamos outros modelos e eles não funcionaram. O comunismo pressupõe uma pessoa que eu acho que o capitalismo não vai permitir que nasça – que pensa por conta própria e que seja realmente livre. E o socialismo sempre deriva para uma ditadura. Falo de cátedra porque sou filho, neto e bisneto de comunistas.

A trajetória comunista de sua família influenciou a sua forma de empreender?

A maior influência que eu tenho na minha vida é do meu avô paterno, que era comunista e acreditava piamente no que fazia. Ele era médico do interior, noroeste de São Paulo. E está no imaginário coletivo de que médico do interior é de uma família abastada. Mas ele era da baixada e morava em uma casa de madeira junto com os camponeses e boias-frias. Não era comunista em palavras, mas em atos. Realmente acreditava que os humanos deviam ser iguais perante o Estado, independentemente de onde partissem. Mas a maneira que queria mudar o status quo era por enfrentamento direto. Mas o capitalismo é muito massivo, está em tudo, no machismo, no racismo, em todas as maneiras que nos relacionamos.

Qual é a sua abordagem no livro para o pós-capitalismo?

Muitos estudiosos estão cunhando este termo há um tempo. Esse grande capitalismo, o corporativo, começa a se fragmentar: os meios de produção começam a ficar cada vez mais acessíveis, seja pela cultura maker, ou pela “do it yourself”, ou pela volta ao handmade. As pessoas querem coisas com mais personalidade. Talvez você continue comprando parafuso de uma grande fábrica, assim como remédios, pois são produtos precisam de muita tecnologia integrada que ainda virão de grandes corporações. Mas cada vez mais, a gente vai procurar um produto – numa época onde todo mundo tem muita coisa – com mais qualidade, sem obsolescência programada na sua concepção, que provavelmente virão de empreendedores e não de corporações. Precisaremos de menos coisas.

ACESSO X POSSE

Não consigo entender bilionários, pois eles abrem mão de muita coisa ou machucam muito o entorno para conseguir ter um avião próprio. É o ápice do símbolo de status. 1% da população mundial ganha mais do que 85% dos restantes: não dá para entender. Agora eles estão preocupados com imortalidade – isso você vê nas pesquisas que estão acontecendo nas empresas que estão recebendo funding no Vale do Silício. A imortalidade e a inteligência artificial são as novas fronteiras. Pela primeira vez na vida, fiz um teste de DNA para saber a sua composição: cuspi dentro de um tubo de ensaio e mandei para a gringa. Quero saber minha ancestralidade, se tenho algum risco genético, alguma enfermidade. Quero me conhecer na minha mais íntima fibra.

Quando morrer for uma questão de classe, você terá um completo descolamento do resto da humanidade. Nós aqui, que temos celulares nas mãos, não podemos dizer que somos o mesmo tipo de humano de um coreano do norte, ou de um camponês chinês. Não pensamos do mesmo jeito, nossa capacidade de produção não é a mesma. Essa separação acaba sendo a raiz da condenação das espécies como um todo. Não é ser de direita ou de esquerda: na minha perspectiva sou conservador, não sou liberal. E sou conservador por uma única razão: eu quero a manutenção do meu estilo de vida. Mas eu estou disposto a perder alguns anéis, a ceder. Isso não me faz um cara bonzinho, altruísta, generoso, nada disso.

Engraçado porque muita gente me vê como um Tio Patinhas, com um monte de lugar aberto. Eu não tenho conforto material nenhum hoje. Se você me perguntar agora, te digo que tenho 15 mil reais na conta corrente, te provo, juro pela minha filha.

SUCESSO X FRACASSO

Ninguém é sozinho bem ou mal sucedido. Para você saber o seu status você precisa do outro como referência. Eu não procuro a afirmação do outro. Me dei conta rapidamente que a opinião alheia é flutuante. Logo depois que você elege um vencedor, você torce para que ele se esborrache. A gente viu isso com o Eike Batista, não falando de métodos ou da pessoa pública. Mas enquanto ele foi umas das primeiras pessoas a integrar a lista dos maiores bilionários, a gente dava atenção. Quando começou a cair, demos ainda mais atenção. A gente gosta de tragédia. Outra coisa… aqui no Brasil – o que é bem verdade em muitas das vezes – o bem sucedido cometeu algum tipo de crime. Essa narrativa do empreendedor, do self made man, que a gente herdou dos Estados Unidos, o american dream, não é adaptada ao Brasil. A gente herdou um sistema de castas. A mobilidade social é muito rara. Eu tive mobilidade social, mas eu sou de classe média baixa. Se eu realmente tivesse sido pobre quando pequeno, não tivesse tido acesso às escolas, provavelmente eu não estaria aqui.

SER PAI X SER MACHISTA

Ser pai não me mudou, mas me deixou mais completo. Ser machista está com os dias contados. A gente está vendo uma transformação tão grande nas relações homens/mulheres. Uma coisa que eu às vezes me pergunto é que falamos muito de feminismo e racismo – e não é uma crítica de forma alguma aos movimentos -, mas falamos pouco sobre capitalismo, que eu acredito que seja a origem das diversas formas de fascismos. Temos que falar mais de distribuição de riqueza. O capitalismo e o patriarcado, como estão intimamente ligados, são fonte de qualquer forma de exclusão. O feminismo e o racismo são problemas comunitários, de direitos humanos, antes de mais nada. Temos que falar de expressões de fascismo, qualquer que seja ela, a transfobia, a homofobia, a gordofobia, qualquer que seja a expressão de exclusão a gente fala sobre o sintoma, mas não falamos sobre a causa. Eu como machista estrutural, do alto dos meus 44 anos, consigo domesticar o fascismo que existe dentro de mim, mas eu não posso negar. Eu não posso ficar apontando o fascismo do outro. Eu tenho que me perguntar onde está o meu. Eu preciso identificar o meu e calá-lo. Sentir o machismo que existe em mim me causa culpa.

AUTOR BESTSELLER X EMPREENDEDOR

Eu sou mais experiente do que grande parte da minha audiência e eu sou grato pelos autores que li na minha vida por terem dado a voz a sentimentos meus que eu não conseguia traduzir em palavras. Eu só consegui articular o sentimento e o pensamento que muitos já tinham por meio de uma ferramenta cega, as palavras. O empreendedor de sucesso é aquele que não odeia a segunda-feira, que não se arrasta por umas férias. Minha vida tem fluxo. Eu também não diferencio tempo só para trabalho e só para lazer.

Para quem está em fase de transição, digo que as pessoas, antes delas se jogarem, se prepararem para empreender a vida. Enviar currículo para quem? Eu não gostaria de ter 20 anos hoje. A gente não sabe de quase nada. Eu cresci com determinadas certezas, com narrativas emprestadas dos meus pais. Eram castradoras, mas me apaziguavam. Tonar-se adulto nos dias de hoje, sem narrativas fixas, num terreno movediço, é apavorante mas ao mesmo tempo libertador. Outro dia ouvi a frase clássica dos millennials, de que eles precisam receber tapinha nas costas o tempo inteiro, que são preguiçosos e mimados. Eu respondi: Não! Esses caras só não querem o que você quer, o seu salariozinho, o teu carrinho, o teu apartamentinho, viajar para a Disney, ter onde cair morto. Eles não querem essas coisa que você preza tanto.

Eu faço as coisas que fazem sentido para mim. O meu drive de existência é ser paulistano, de alguma forma criar identidade para uma cidade que tem uma identidade que eu nego: a do dinheiro, trabalho, trânsito, hostilidade. Isso tudo não representa mais a cidade. Jamais sairia de São Paulo. Já até passou pela minha cabeça, como passar um período em Belém do Pará. Agora, pai, não me cabe essa vida nômade. Mas São Paulo me instiga, é uma cidade fértil, potente. Tem muito para acontecer ainda.

Assista um trecho da entrevista.

*O conteúdo (ou parte dele) é publicado todo sábado na coluna Fora da Caixa, na edição impressa do jornal Estado de Minas, e pode ser encontrado também nas bancas. 

1 Comentário

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O que une Facundo Guerra, Ernst Götsch e Rodrigo Cartacho — GUAJAresponder
maio 30 at 06:05 AM

[…] Facundo Guerra, conhecido por ser “o dono da noite de São Paulo, embora ele não seja fã desse rótulo, escreveu o livro Empreendedorismo para Subversivos (editora Planeta, 2017), uma espécie de guia para abrir um negócio no “pós-capitalismo”. Ele conquistou esse título após mais de uma dezena de empreendimentos na capital paulista que desafiou a reputação da cidade — a do trabalho, do dinheiro e do trânsito, apenas -, sendo um dos responsáveis pela revitalização do cenário cultural da cidade. […]

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