Entrevista: David Vélez, fundador do Nubank - Blank Space

Entrevista: David Vélez, fundador do Nubank

Divulgação/Nubank

Uns veem o blockchain (tecnologia por trás da criptomoeda Bitcoin) como uma alternativa, mesmo que longínqua, ao sistema há tanto explorado pelos gigantes e poderosos bancos. Uma das poucas certezas é o desejo latente da sociedade de encontrar modelos que permitam maior poder sobre o seu próprio dinheiro e com custos mais baixos e transparentes. Polêmicas à parte, precisamos falar sobre o Nubank, uma espécie de banco digital apontado como o possível segundo unicórnio brasileiro (neste mês a 99 se transformou na primeira startup com valor de mercado superior a 1 bilhão de dólares).

Fundado em 2013, como uma fintech (startup de tecnologia focada em serviços financeiros), o Nubank nasceu com a meta de alcançar 1 milhão de clientes em cinco anos e hoje, antes mesmo de completar o período, já atingiu a marca dos 3 milhões. Começou em uma casinha de 130 metros quadrados no Brooklin (SP) e agora ocupa um prédio de 9 mil metros quadrados em Pinheiros (SP) – um endereço, ou agência se preferir, para atender clientes de todo o país. Conta com mais de 800 funcionários, ou melhor, “nubankers” como se autodenominam, entre eles Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central. A receita anual – avaliada e não confirmada – gira em torno de 500 milhões de reais.

Divulgação/Nubank

O fundador é o colombiano David Vélez, de 36 anos, que desenhou a sua trajetória para nunca ter um chefe. Aos 18 anos ingressou na Universidade Stanford, na Califórnia (EUA), peça-chave do Vale do Silício. Mas não pense que seu primeiro trabalho foi criar uma startup em uma garagem. Não. Trabalhou como funcionário, mais especificamente como analista do Morgan Stanley, empresa de serviços financeiros sediada em Nova York. Quando em 2011 se mudou para São Paulo, com o desafio de encontrar oportunidades de investimento no mercado latino-americano para um fundo da Sequoia (aquele que deu o primeiro milhão de dólares para Steve Jobs impulsionar a Apple), se deparou com um problema: a dificuldade de abrir uma conta bancária no Brasil. Foi aí que levou para a mesma Sequoia o projeto de abertura de um banco 100% digital no país.

David Vélez, Nubank

Quem é o Nubank na prática? Surgiu oferecendo cartões de crédito sem tarifas e com taxas de juros mais baixas do que as praticadas pelo mercado. E de uma forma bem simples: o cliente abre uma conta por meio do aplicativo no celular, perde o cartão e o recebe em menos de cinco dias. O foco para 2018 é a NuConta, que, revela o fundador, está em fase de testes e deve ser disponibilizada para o público em geral ainda neste primeiro trimestre. “Queremos entender as reais necessidades dos clientes para desenhar um produto realmente útil para eles, e esperamos atender dezenas de milhões de brasileiros com esse produto”, disse. Ele se refere principalmente aos que têm Facebook e Youtube, mas não tem conta de banco.

 

Onde está a principal inovação do Nubank em relação aos bancos e serviços financeiros da economia clássica? 
David Vélez – O setor financeiro no Brasil é altamente concentrado. E, além de ter poucas opções, os clientes pagam um dos juros mais altos do mundo em cartão de crédito para ter experiências horríveis como consumidores. Quando cheguei ao Brasil e me deparei com esse cenário, vi um grande desafio e também uma grande oportunidade. Utilizando tecnologia e design, reimaginamos a experiência do cartão de crédito para os dias de hoje. Desenvolvemos toda a nossa tecnologia internamente, com foco em soluções que nos permitam continuar inovando, diferente dos grandes bancos, e buscamos sempre criar recursos que permitam que as pessoas tenham o controle sobre suas finanças. Com o uso inteligente dos nossos recursos, conseguimos criar um modelo de negócio onde não precisamos cobrar anuidade, mas não acredito que esse seja o nosso maior diferencial. Para o consumidor, o que realmente importa é o serviço que oferecemos. Prova disso é que mais de 80% do nosso crescimento segue orgânico, em grande parte devido a indicações feitas por clientes.

Quem acreditou na ideia? O Nubank já recebeu aporte de quem e de quanto? 
David Vélez – Já recebemos, até hoje, os seguintes aportes:
> 2 milhões de dólares (Seed: investimento inicial), em junho de 2013. Investidores: Sequoia Capital e Kaszek Ventures.
> 15 milhões de dólares (Series A: para se adaptar), em agosto de 2014. Investidores: Sequoia Capital e Kaszek Ventures
> 30 milhões de dólares (Series B: para escalar), em maio de 2015. Investidores: Tiger Global Management, Sequoia Capital, Kaszek Ventures, QED Investors.
> 52 milhões de dólares (Series C: para acelerar), em janeiro de 2016. Investidores: Founders Fund, Tiger Global Management, Sequoia Capital, Kaszek Ventures.
> 80 milhões de dólares (Series D: para aprimorar e crescer), em dezembro de 2016. Investidores: DST Global, Sequoia Capital, Founders Fund, Tiger Global Management.

Quais são as perspectivas para 2018? 
David Vélez – Nosso principal foco agora no começo de 2018 é a NuConta, que está em fase de testes e deve ser disponibilizada para o público geral ainda neste  primeiro trimestre. Hoje os testes estão restritos a nossa base de clientes de cartão de crédito e seguimos trabalhando para criar melhorias como o depósito de dinheiro e pagamento de contas via boleto, além de recursos como agendamento de transferências. Queremos entender as reais necessidades dos clientes para desenhar um produto realmente útil para eles e esperamos atender dezenas de milhões de brasileiros com esse produto.

Blockchain faz parte das estratégias para o futuro?  
David Vélez – Estamos sempre em busca de novas ideias e soluções para melhorar a experiência dos nossos clientes e de olho nas novidades financeiras e nas tendências do mercado, mas ainda estamos muito focados em aprimorar os produtos que lançamos recentemente, como a NuConta, e não temos previsão de lançar nada relacionado a blockchain.

Ainda se considera uma startup? 
David Vélez – Nós somos uma empresa de tecnologia que oferece serviços financeiros, e não um banco tradicional. Usamos tecnologia, data science e design para inovar e simplificar a vida financeira dos nossos clientes. Crescemos em um ritmo bastante acelerado e atingimos um patamar mais maduro como empresa, mas ainda mantemos uma filosofia mais alinhada com a das startups, de constante mudança e inovação. Começamos uma revolução no setor financeiro, mas ainda há muito a fazer e, aqui no Nubank, é sempre como se fosse o primeiro dia de trabalho.

 

bilhões de pessoas não têm conta em banco no mundo (da população total de 7,6 bilhões)
3,5 bilhões são o número de usuários de internet também pelo mundo

Fonte: Livro A Internet do Dinheiro (2016), de Andreas Antonopoulos

 

*Artigo publicado hoje na coluna Fora da Caixa, da editoria de economia, na versão impressa do jornal Estado de Minas. Nas bancas.

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